quarta-feira, 28 de outubro de 2026 · Santa Teresa, ES InstagramYouTube
Cidades

Mais da metade da população do país vive dentro da Mata Atlântica, aponta novo estudo

Pesquisa do Instituto Nacional da Mata Atlântica recalcula o número de brasileiros que dependem do bioma e traz metodologia inédita para medir essa concentração

Um novo levantamento científico mostra que 57% da população brasileira, mais de 116 milhões de pessoas, vive dentro dos limites da Mata Atlântica, um bioma que ocupa apenas 15% do território nacional. O dado é do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e acaba de ser publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.

Para quem vive na região serrana capixaba, área historicamente coberta por remanescentes de Mata Atlântica e hoje pressionada por avanço urbano, expansão agrícola e mudanças no regime de chuvas, o estudo dá números concretos a uma realidade já sentida no dia a dia: a floresta que resta está cada vez mais cercada por gente, e a água que abastece as casas e as lavouras da região depende diretamente da saúde desse bioma.

O estudo mostra que a concentração populacional dentro do bioma não é uniforme. No Sudeste, entre 83% e 85% dos habitantes vivem dentro dos limites da Mata Atlântica, dependendo do critério geográfico usado. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais concentram a maior parte desses moradores, e cerca de um terço de toda a população que vive no bioma está só em território paulista.

Os pesquisadores destacam que viver dentro dos limites do bioma não significa viver em meio à floresta. A maior parte dessas pessoas está em cidades e áreas urbanizadas construídas onde antes havia mata, o que reforça o argumento central do estudo: a Mata Atlântica hoje é, antes de tudo, um bioma urbano, ligado ao abastecimento de água, à regulação do clima nas cidades e à segurança contra eventos extremos.

Até agora, estimativas sobre quantos brasileiros vivem na Mata Atlântica variavam bastante, entre 60% e 72%, sem que os critérios usados para chegar a esses números fossem sempre explicados. O diferencial do novo estudo está justamente na transparência do método: os pesquisadores cruzaram dados do Censo Demográfico de 2022 com dois limites oficiais e reconhecidos do bioma, o definido pela Lei da Mata Atlântica e o mapeamento do IBGE, e só consideraram dentro da área os municípios com metade ou mais do território inserido no bioma.

Segundo o pesquisador Sérgio Lucena Mendes, um dos autores do artigo, esse cuidado evita um erro comum nas contagens anteriores: tratar municípios com presença mínima do bioma como se estivessem totalmente dentro dele, o que inflava as estimativas.

A pesquisadora Mileide Formigoni, também do INMA, resume o desafio que esses números escancaram. Com mais de 116 milhões de pessoas concentradas numa área relativamente pequena, o bioma enfrenta escassez hídrica, degradação de bacias, fragmentação da floresta e maior vulnerabilidade a eventos climáticos extremos.

Ao mostrar que mais da metade do país depende diretamente dos serviços que a Mata Atlântica presta, como fornecimento de água, proteção do solo e polinização, o estudo reforça um ponto que produtores rurais e moradores de cidades cercadas por remanescentes já sabem na prática: conservar o pouco que resta da floresta não é uma pauta distante, é questão de abastecimento e de clima local. Os autores defendem políticas públicas que unam conservação ambiental, planejamento urbano e adaptação às mudanças climáticas, justamente as três frentes que mais pressionam municípios pequenos e de base agrícola inseridos no bioma.

Fonte do estudo: https://www.scielo.br/j/aabc/a/8G9fDxWtm8d4B6tXxKCbN7x/?lang=en

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