Uma dúvida simples de criança sobre bucha vegetal, feita dentro de uma sala de aula na zona rural de Santa Teresa, terminou virando um projeto que já rendeu duas viagens entre as escolas: uma trouxe a EMEF Adevalni Sysesmundo Ferreira de Azevedo, de Vitória, até Goiapaboaçu, em agosto, e outra levou os estudantes de Goiapaboaçu até a capital, em setembro.
O projeto “Semeando Sustentabilidade: a bucha vegetal como elo entre campo e cidade” nasceu na EMPEIEF Goiapaboaçu, da Rede Municipal de Ensino de Santa Teresa, pelas mãos das professoras Simoni Ziviane Sarnaglia (Educação Infantil) e Brunela de Angeli Pomarolli (Ensino Fundamental), dentro do Programa Agrinho 2026. A curiosidade sobre a planta, cultivada havia gerações em Goiapaboaçu, virou investigação de sala de aula e, depois, ponte de cartas, desenhos e vídeos com a EMEF Adevalni Sysesmundo Ferreira de Azevedo (ASFA), de Vitória.
Em agosto, a troca saiu do papel: foram os estudantes de Vitória que viajaram até Goiapaboaçu para conhecer a escola, a plantação de bucha vegetal e a rotina da comunidade rural. No dia 1º de setembro, o caminho se inverteu. Os alunos de Goiapaboaçu foram a Vitória reencontrar os colegas com quem só tinham contato por carta.
Quando a palavra escrita ganha rosto
Segundo a professora Simoni Ziviane Sarnaglia, o que mais chamou atenção foi ver as crianças reconhecendo, ao vivo, lugares que só existiam até então na imaginação criada pelas correspondências.
Um dos momentos mais simbólicos da viagem aconteceu na horta da escola de Vitória. Sementes de bucha vegetal levadas de Goiapaboaçu na etapa anterior do projeto já estavam germinadas, e as crianças santa-teresenses encontraram as próprias mudas crescendo em outro território, o que tornou concreta, para elas, a conexão construída pelo projeto entre campo e cidade.
Um livro de Santa Teresa virou jogo em Vitória
A viagem também revelou aos estudantes de Goiapaboaçu um desdobramento inesperado do intercâmbio. O livro “Terra dos Colibris”, escrito pela pedagoga Angela Rassele Corteletti e que apresenta elementos da história e das belezas de Santa Teresa, havia sido levado anteriormente aos estudantes da capital e inspirou a criação de um jogo virtual pelos educadores de lá.
Para Angela Rassele Corteletti, que também é pedagoga da EMPEIEF Goiapaboaçu, o jogo representou uma ponte construída entre duas escolas, duas realidades e muitas crianças. Para ela, a viagem teve um significado além do passeio: mostrou às crianças de Goiapaboaçu que os saberes da própria comunidade despertam interesse em outros lugares e que o conhecimento não fica preso à sala de aula, circulando, encontrando outras pessoas e transformando relações.
A rotina da roça, contada em Libras e nos Correios
Em Vitória, os próprios estudantes da escola anfitriã ajudaram a apresentar os espaços aos visitantes de Goiapaboaçu, entre atividades de contação de histórias, pintura, uma aula de Libras com o professor Fábio Pitol, visita à Sala de Regulação e uma atividade baseada na história “Uma Joaninha Diferente”. A programação incluiu ainda uma visita a uma agência dos Correios, o serviço por onde passaram as cartas que aproximaram as duas turmas, e uma vivência na Refúgio de Vida Silvestre (Revis) da Mata Paludosa, onde os anfitriões de Vitória compartilharam conhecimentos sobre ecologia e preservação ambiental com os visitantes do campo.
O que a experiência deixou para as famílias de Goiapaboaçu
Os efeitos da viagem chegaram até as casas das famílias de Goiapaboaçu. Ana Veronica Ferreira de Oliveira Pereira dos Santos, de 32 anos, é mãe da estudante Eloísa Cecília Pereira dos Santos, de 6 anos, e contou que a filha voltou empolgada com tudo o que conheceu, do contato com Libras aos animais vistos durante o passeio.
Segundo Ana Veronica, a filha aprendeu linguagem de sinais na viagem e chegou a tentar ensinar em casa. Moradora do campo e criada na mesma realidade escolar da filha, ela vê na experiência de Eloísa um valor que vai além do passeio para a capital, associando o que a filha viveu ao próprio percurso escolar no campo.
O conhecimento do campo tem valor, diz subsecretária
Para a subsecretária Pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, Nilceia Possatti Novelli, o intercâmbio ajuda os estudantes de Goiapaboaçu a reconhecerem o valor dos saberes da própria comunidade rural.
Para Nilceia, o intercâmbio promove diálogo, respeito às diferenças, convivência e construção de novos conhecimentos, além de ajudar a romper com a ideia de que o conhecimento está apenas nos grandes centros urbanos. A subsecretária reforça que a bucha vegetal, elemento comum ao dia a dia de Goiapaboaçu, virou instrumento de pesquisa que evidencia que as comunidades do campo possuem conhecimentos, histórias e práticas que merecem ser reconhecidos e compartilhados.
Próximos capítulos
Com a visita a Vitória, as etapas inicialmente previstas no projeto foram concluídas, mas a experiência despertou em professores e estudantes o desejo de manter a aproximação. Segundo Simoni Ziviane Sarnaglia, novas possibilidades já estão sendo estudadas para incorporação aos objetivos de aprendizagem do terceiro trimestre, com interesse manifestado pelas próprias crianças de Goiapaboaçu em continuar o contato com os colegas de Vitória.
Com informações da Prefeitura Municipal de Santa Teresa e da Prefeitura de Vitória.
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