quarta-feira, 28 de outubro de 2026 · Santa Teresa, ES InstagramYouTube
Meio Ambiente

Primeiro atropelamento de papagaio-chauá acende alerta para conservação

Primeiro atropelamento de papagaio-chauá registrado no ES alerta para nova ameaça à ave ameaçada de extinção na Mata Atlântica.
Foto Ricardo Ribeiro

Registro inédito no ES preocupa pesquisadores

Pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) registraram pela primeira vez o atropelamento de um papagaio-chauá (Amazona rhodocorytha), espécie ameaçada de extinção e exclusiva da Mata Atlântica. O caso foi divulgado nesta sexta-feira (22) em artigo publicado na revista científica internacional Oryx.

A ocorrência foi registrada em 4 de novembro de 2025, em um trecho da BR-101, no município de Sooretama, no Espírito Santo. A área liga duas importantes unidades de conservação para a espécie: a Reserva Biológica de Sooretama e a Reserva Natural Vale, consideradas essenciais para a sobrevivência das últimas populações viáveis do chauá.

Segundo os pesquisadores, o atropelamento representa um novo fator de risco para a ave, que já sofre com a perda de habitat e a captura ilegal.

A bióloga Flávia Guimarães Chaves, pesquisadora do INMA, destaca que mesmo episódios isolados podem afetar significativamente uma espécie vulnerável.

“O papagaio-chauá já enfrenta fortes pressões ambientais. Quando se trata de populações reduzidas, qualquer aumento na mortalidade pode gerar impactos relevantes para a conservação”, afirma.

Até então, colisões com veículos não eram consideradas uma ameaça expressiva para a espécie. De acordo com o pesquisador Ricardo Ribeiro, também do INMA, o comportamento natural do chauá ajudava a reduzir esse risco.

“A espécie costuma ocupar as copas das árvores e evita áreas abertas e bordas de floresta. Historicamente, isso diminuía sua exposição às rodovias”, explica.

Os cientistas avaliam, porém, que a fragmentação florestal e o avanço das alterações na paisagem estão mudando a dinâmica de deslocamento das aves. Com menos áreas preservadas, os indivíduos têm se aproximado das margens das matas e, consequentemente, das estradas.

O risco pode se intensificar durante o período reprodutivo, entre setembro e novembro, quando os papagaios exploram áreas periféricas com maior frequência.

O trecho da BR-101 onde ocorreu o atropelamento está localizado na zona de amortecimento das unidades de conservação faixa criada para minimizar impactos humanos sobre áreas protegidas. Apesar da relevância ambiental do corredor ecológico, os pesquisadores afirmam que faltam medidas adequadas para reduzir acidentes com fauna silvestre.

Entre as principais demandas estão a instalação de redutores de velocidade, sinalização específica para travessia de animais e monitoramento contínuo da fauna ao longo da rodovia.

“É necessário integrar planejamento viário e conservação ambiental para garantir a conectividade desses corredores ecológicos e evitar novas ameaças à espécie”, ressalta Flávia.

Os pesquisadores também chamam atenção para a subnotificação de atropelamentos de aves no Brasil. Segundo eles, a maioria dos registros concentra-se em mamíferos, o que pode esconder a dimensão do problema para espécies ameaçadas.

O estudo reforça a necessidade de incluir a mortalidade em rodovias nas estratégias de conservação do papagaio-chauá e de outras aves da Mata Atlântica.

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