Iniciativa promove a capacitação de estudantes para conhecer e conservar a biodiversidade desse ecossistema capixaba
Os Morros de Sal constituem um ecossistema singular do Espírito Santo, formado por solo resultante da decomposição de rochas de quartzito, processo que dá origem a depósitos de areia branca com aspecto semelhante ao sal. O ambiente está distribuído nas regiões Centro e Sul do estado, presente nos municípios de Afonso Cláudio, Alfredo Chaves, Castelo, Domingos Martins, Marechal Floriano, Rio Novo do Sul, Santa Maria de Jetibá e Vargem Alta.
Esses ambientes apresentam elevada diversidade biológica, com espécies endêmicas e ameaçadas de extinção, entre elas a quaresminha-da-areia (Pleroma quartzophilum), a samambaia-morcego (Oleandra quartziticola) e a canelinha-da-areia (Persea quarciticola).
O coordenador do estudo e pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica, Elton John de Lírio, explica que, apesar da relevância ecológica, os Morros de Sal vêm sofrendo impactos decorrentes da ação humana, como mineração, supressão da vegetação nativa, pastoreio e disseminação de espécies invasoras, agravados pela ausência de legislação específica voltada à sua proteção.
Para ampliar o conhecimento científico e contribuir com a conservação do ecossistema, o INMA iniciou o projeto “Do Desconhecimento à Conservação: Capacitando Jovens e a Sociedade para o Levantamento da Biodiversidade dos Morros de Sal da Mata Atlântica Capixaba”. A iniciativa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e reúne estudantes de graduação e alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Ponto do Alto, em Domingos Martins.
Um projeto nascido da própria trajetória de um estudante
O estudante de Ciências Biológicas Vagner Faller é um dos idealizadores do estudo. Ele conta que o ambiente faz parte de sua vida desde a infância e influenciou diretamente sua escolha profissional.
“Esse ambiente faz parte da minha vida desde minha infância e esteve presente nos meus momentos mais importantes, tornou-se parte de quem eu sou. Os Morros de Sal exerceram profunda influência na construção da minha trajetória, inspirando meu ingresso no curso de Ciências Biológicas e despertando o desejo de compreender e estudar esse ecossistema tão singular”, relata.
Faller acrescenta que, ao longo do tempo, testemunhou paisagens sendo consumidas pela mineração e por outras formas de degradação, e que dessa experiência nasceu a motivação para o projeto. “A cada área destruída, sinto como se um pedaço de mim também desaparecesse. Mas é justamente dessa dor que nasce a força que me impulsiona a continuar lutando para que esses lugares sejam conservados e para evidenciar aos órgãos ambientais sua importância ecológica e sua singularidade.”
A professora de Biologia e Ciências da EEEFM Ponto do Alto, Sarah de Jesus Cantarino, destaca o valor pedagógico da iniciativa, conduzida por um ex-aluno da escola. “É muito bom para os nossos alunos verem o exemplo de alguém que passou por lá. É uma experiência única realmente. A todo o momento a gente relembra coisas de sala de aula, da Ecologia, da Botânica, da Sustentabilidade.”
Expedições e metodologia
As expedições do projeto ocorrem no Morro de Sal da Reserva Particular do Patrimônio Natural Águia Branca, em Vargem Alta, que apoia o desenvolvimento das atividades.
A pesquisadora do INMA Mariane Kaizer explica que o projeto capacita os estudantes para levantamentos de biodiversidade, com uso de armadilhas fotográficas e câmeras. Está prevista ainda a implantação de uma trilha interpretativa sinalizada no local, além da elaboração de produtos voltados à conservação e à divulgação do conhecimento sobre a fauna e a flora associadas a esses ambientes.
Segundo Elton John de Lírio, a iniciativa também desenvolverá ações de educação ambiental e divulgação científica por meio de conteúdos para redes sociais, minidocumentários e guias digitais das espécies registradas.
A visão dos estudantes
Para o estudante de ensino médio Gustavo Pires, participar do projeto é importante tanto para a conservação do ecossistema quanto para a conscientização sobre ele. “O projeto ajuda a destacar os Morros de Sal, trazendo mais informações sobre esse ecossistema, desinvisibilizando-o. Isso é muito necessário porque os Morros de Sal ainda são muito desconhecidos. Justamente por conta desse desconhecimento é que acontecem, por exemplo, as escavações e as retiradas de areia, que são muito destrutivas e prejudiciais.”
Já a estudante Júlia Caetano da Silva destaca a oportunidade de conhecer de perto um dos ambientes naturais mais especiais do Espírito Santo. “Acredito que, quando conhecemos melhor a natureza que nos cerca, passamos a valorizá-la e protegê-la com mais responsabilidade. Por isso, fazer parte dessa iniciativa é motivo de orgulho.”
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