Florestas da Mata Atlântica que voltam a crescer após o abandono de áreas desmatadas podem recuperar, ao longo do tempo, grande parte da diversidade evolutiva do bioma. Estudo liderado pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e publicado em 3 de março na revista Biological Conservation indica que essas áreas em regeneração ajudam a preservar milhões de anos de evolução.
A pesquisa analisou 79 áreas no Sudeste do Brasil. Desse total, 61 eram florestas secundárias, formadas depois do abandono de áreas desmatadas, e 18 eram florestas maduras, primárias ou com mais de um século de regeneração. Os pesquisadores registraram cerca de 6.400 árvores, de 637 espécies e 75 famílias botânicas.
Os resultados mostram que, à medida que as florestas secundárias envelhecem, cresce tanto o número de espécies como a diversidade filogenética, indicador que mede as relações evolutivas entre elas. No início da regeneração, essas áreas reúnem só uma parte da diversidade presente nas florestas maduras. Com o passar das décadas, porém, essa diferença cai.
Segundo o estudo, depois de cerca de 80 anos de regeneração natural, as florestas secundárias podem atingir cerca de 95% da diversidade filogenética observada em áreas antigas.

A recuperação, no entanto, não é completa. Algumas linhagens raras e mais distintas do ponto de vista evolutivo aparecem apenas nas florestas maduras. O estudo destaca esse padrão em grupos da ordem botânica Malpighiales, que reúne cerca de 40 famílias e mais de 16 mil espécies.
Para os autores, esse dado reforça que as florestas antigas continuam insubstituíveis na conservação da biodiversidade. Ao mesmo tempo, mostra que as áreas em regeneração têm papel relevante quando integradas à paisagem.
“Isso significa que a combinação de diferentes estágios de floresta conserva mais diversidade evolutiva do que qualquer um deles isoladamente”, afirma Alex Coelho, pesquisador do INMA e líder do estudo.
O trabalho aponta ainda efeito prático para políticas públicas. Em um bioma que está entre os mais ricos e ameaçados do planeta, a regeneração natural surge como estratégia eficiente e de custo relativamente baixo para restaurar a biodiversidade, sobretudo onde ainda existem remanescentes florestais capazes de fornecer sementes.
A conclusão dos pesquisadores é que a conservação da Mata Atlântica depende de uma estratégia combinada: proteger os remanescentes antigos e, ao mesmo tempo, valorizar as florestas secundárias. Esse mosaico, segundo o estudo, ajuda a preservar não só o número de espécies, mas também a variedade de linhagens evolutivas que sustenta o funcionamento dos ecossistemas tropicais.

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