A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou, em 26 de setembro, uma atualização das recomendações para diagnóstico e tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O texto orienta a prática clínica no País, valoriza o cuidado multiprofissional e reforça que escolhas terapêuticas devem se apoiar em evidências científicas.
O documento afirma que o diagnóstico é clínico, baseado na observação direta, na entrevista com responsáveis e nos critérios do DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais). Recomenda avaliar linguagem, cognição e funcionamento adaptativo, com informações de professores e cuidadores quando possível. Não há marcador biológico para TEA, o que exige experiência em diagnóstico diferencial.
Os autores pedem cautela com situações que podem simular sinais do transtorno, como transtornos complexos de linguagem, deficiência intelectual e TDAH em idade precoce. O texto também chama atenção para contextos de vulnerabilidade social que podem levar a avaliações equivocadas, e registra que exposição precoce e intensa a telas se associa a problemas de comportamento em algumas crianças.
Na terapia, a diretriz destaca a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) como base da intervenção, inclusive em modelos naturalísticos para crianças menores, como Denver, JASPER e Pivotal Response Training, que utilizam técnicas comportamentais. Recomenda abordagem transdisciplinar e plano individualizado. A revisão também lista 28 práticas com evidência, apoiada no National Autism Center e no Frank Porter Graham Institute (UNC-Chapel Hill).
A orientação sobre intensidade de tratamento desestimula “cargas horárias” padronizadas. A indicação deve partir de uma avaliação clínica inicial e ser ajustada após o plano elaborado pela equipe terapêutica, com revisão contínua conforme a evolução do paciente.
O protocolo faz um alerta contra métodos sem comprovação, como dietas restritivas sem indicação clínica, suplementações indiscriminadas, ozonioterapia, quelantes, imunoglobulina, oxigenioterapia hiperbárica, MMS e uso de células-tronco. O canabidiol é classificado como experimental e sem eficácia comprovada para TEA; o ácido folínico não é recomendado de rotina.
Entre técnicas em estudo, a estimulação craniana não invasiva mostrou resultados iniciais positivos, mas ainda carece de séries maiores e revisões sistemáticas. Abordagens como DIR/Floortime e equoterapia são citadas como promissoras, porém sem evidência robusta para recomendação ampla até o momento.
A diretriz reúne sinais de alerta frequentes. “Dificuldade para interação social, pouco contato visual, dificuldade de entender ironias ou piadas, apego incomum a objeto e dificuldade com transições são sintomas muito comuns em autistas e servem de alerta para familiares e educadores”, afirma a neuropsicopedagoga Pollyana Fiorotti.

Para a médica Larissa de Sousa, neurocirurgiã pediátrica com pós-graduação em psiquiatria infantil, o texto “padroniza condutas, reforça a importância do diagnóstico correto e ajuda a combater terapias sem evidência científica, que representam risco real à saúde”.

A atualização sucede um documento de 2021 e consolida referências internacionais para orientar a prática no Brasil. A íntegra está disponível no site da SBNI.
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